Hoje eu te apresento o “Diário de uma Roedora”. Relatos da vida de uma roedora que sofre com onicofagia desde os tempos de criança. Que cresceu com a culpa e a necessidade de roer unha. Foi adolescente com certa inveja [boa] das mãos bonitas e unhas grandes das amigas. Tornou-se mulher e ainda luta para resistir à relação das unhas com os dentes. Luta difícil, árdua, cruel. Relação de amor violento. Diário de uma roedora que cresceu, mas as unhas...
[na infância]
Não me lembro exatamente quando foi o primeiro contato entre meus caninos e minhas unhas. Só sei que foi aqueeele amor a primeira vista. Paixão que pega fogo. Relação de amor violento.
E o romance é tão intenso que entra ano, sai ano, e ele continua firme - e forte. Os encontros acontecem várias, milhares, incontáveis vezes ao dia. E sempre uma das partes sai ferida. Na maioria das vezes – diria até todas as vezes – os dedos são as vítimas. Eles saem destruídos, doloridos, vez ou outra acompanhado de gotículas de sangue minando da área violentada. Mas eles não desistem e sempre estão lá, procurando os caninos, com força e velocidade. E estes, por sua vez, executam sua função ferozmente. E assim segue um misto de dor com prazer. Sangue e saliva. Língua, dente, unha, dedo, pele. A vontade de consumar uma separação é tomada pela inexplicável força superior que faz com que os dedos alcancem a boca.
Nas contas de minha mãe, os meus indícios de roedora começaram com uns 8 anos, pra menos. Diz que cerca de 20% a 30% das crianças de 7 a 10 anos são roedoras ferozes. Mas os que mais sofrem com a relação “unha e dente” são os adolescentes. Há tratamentos e terapias que nunca fiz. Mas várias psicologias infantis já foram aplicadas pela minha mãe. Em vão, claro!
Com os constantes fracassos, começou a partir para a ignorância. Por todos os meus 8, 9, 10, 11, 12, 13 anos eu ouvi berros:
- Tiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiraaaa esssa mããããooo da boooocaaaaa!!!!
- Pááááááááraaaa de roer essas unhaaassss!!!!!!!!
Mas era incrível. Justamente quando minha mãe me mandava “parar de roer unhas”, eu não estava roendo unha. Nesses casos a vítima já era a cutícula. Ou até mesmo a ponta dos dedos. Porque unha que era bom, já não se fazia suficiente.
Mas os gritos já não intimidavam. Era tirar os olhos de mim, os dedos corriam à boca.
Já tomei tapas nas mãos, na boca... e quando errava acertava o olho mesmo, o nariz, ia tudo no rumo, não interessa. O que importava era que a mão saísse da boca.
Já ouvi a historinha da pimenta no dedo. Das bactérias que entram na barriga (que não deixa de ser verdade, pois o ato de roer unha é como um transporte dos germes que estão embaixo da unha para a boca). Do dedo que pode cair. Do esmalte com gosto amargo. Nada, nada disso intimida um roedor nato. Já cheguei a ouvir até uma história, mais ou menos assim:
- Quando você rói, você engole aquele pedacinho da unha. O pedacinho vai parar no seu estômago e pode até furar seu órgão. [sim, pasmem, eu já ouvi isso]
- Mas... – eu respondia – eu não engulo o pedaço da unha. Eu cuspo.
- Nãão interessa, sempre entra um pedacinho sem você perceber.
- Hum... – nesse momento já não mais respondia, eu pensava comigo mesma, para não dar mais pano pra manga – eu cuspo o pedaço todo da unha. Não engulo nada. Eu cuspo! – repetia comigo – Eu cuspo, cuspo...
É, é muito nojento. Mas todo roedor faz isso e acha super normal. Põe a unha entre os dentes, corta, cospe. Põe outra unha entre os dentes, rasga, cospe. E assim vai. Tá, dependendo do lugar, não dá para cuspir. Então o dedo indicador e o polegar do roedor se encontram, formando uma esp
écie de pinça e, num movimento discreto [o roedor acha que é discreto], o pedaço de unha é retirado da ponta da língua e descartado em seguida.[na adolescência]
Nunca chegaram a colocar pimenta nos meus dedos [não que eu me lembre]. Na época que estava um pouco maior, ou como diriam os iletrados, mais grandinha, eu comecei a apelar para os esmaltes. Já usei aquele com gosto ruim, sabe?! É... Foi uma experiência engraçada.
Você passa o esmalte e se sente poderosa. “Não vou ousar colocar a mão na boca com esse esmalte nojento”
Passa alguns minutos, um momento de distração e... “Arrrgggt”.
Lembro-me como se fosse hoje. Aquele gosto estranho que se espalhou por toda a língua [mais ou menos quando você come uma banana verde, que “amarra” sua boca]. Naquele momento você se arrepende com todas as suas forças de ter colocado o dedo na boca. Pior ainda, de ter inventado de passar esse maldito esmalte.
Na segunda armadilha da distração, o gosto parece mais ameno. Na terceira, você já não liga. Aí nas vezes seguintes você já se acostumou com aquele maldito gosto e a armadilha cai por terra. É hora de partir pra outra. Ou permitir a relação “unha e dente” de uma vez.
Maaass as mães não desistem nunca. Com a esperança de levar a filha em uma manicure e sair de lá com as unhas pintadas com um lindo esmalte, a minha mãe tentou apelar para o psicológico. Era abrir a carteira e... cai um papelzinho: “Filhinha, roer as unhas faz mal à saúde”. Abrir o caderno e... um recadinho diferente: “Amor, pára de roer unha, sua mão está ficando feia”. A cada recado o apelo ia ficando mais intenso. Mas... Parecia que as palavras carinhosas não surtiam efeito. Vários e vários outros recados foram escritos. Com sucesso? Am... adivinha?
Sim, ela desistiu. E os recadinhos acabaram. Nesse momento eu já começava a perceber que ela tinha razão. Que minhas mãos estavam horríveis, desprezíveis, se comparadas às das minhas amigas que iam à manicure toda semana e pintavam as unhas com cores escuras e lindas.
- Aff, manicure, coisa de gente fútil. – era o que eu pensava, ou melhor, me convencia para não aceitar que eu morria de vontade de “fazer as unhas” e usar esmaltes coloridos, vibrantes, lindos...
Mas nuuuunca que ousarei ir à uma manicure sendo que nem unha tinha para lixar e pintar. Cutícula? Que nada. Haviam resquícios de peles que o alicate nem alcançaria. Quantas e quantas vezes fiz ferida no dedo, saindo sangue e a cutícula já nem crescia mais direito. Ai se eu ousasse ir à uma manicure, todo o salão ficaria olhando aqueles dedos estranhos, machucados, inchados, sem unha... Definitivamente, manicure não!
Precisava agir. Sozinha.
Estoques de esmaltes. Passa esmalte, tira esmalte, passa esmalte, tira esmalte... até a unha ficar um pouquinho maior. E ela crescia! Crescia porque ao invés de cortar a unha com os dentes, meus caninos trabalhavam para retirar o esmalte. Isso permitia um crescimento.
E eis que elas ficavam grande e moles e frágeis e quebradiças. Impossível ficar com as unhas inteiras sem esmalte. E haja acetona, algodão e esmaltes coloridos. Tive até um esmalte que brilhava no escuro. Aquele era o máximo.
Mas... era um quebradinho e... eu me entregava. As nove unhas inteiras eram sacrificadas por conta de uma que quebrou sozinha. Me rendia ao sacrifício prazeroso de roer. Retomei minha vida de roedora.
[pós-adolescência]
Já havia me entregado de vez e me assumido uma roedora eterna. Perdi a guerra para mim mesma. Mas perdi a guerra porque no fundo, eu não queria ganhar. Eu não queria acabar com o prazer de roer. Trucidar as unhas com os dentes era muito mais prazeroso que ficar olhando, só olhando, as unhas grandes, com esmalte.
Meus dedos já estavam feios. O ato de ficar puxando a pele da cutícula com a boca já estava me causando a chamada paroníquia crônica, que é a infecção da pele ao redor das unhas, caracterizada por inchaço, vermelhidão e aumento da sensibilidade. O dermatologista Marcelo Bellini, professor da Sociedade Brasileira de Dermatologia e Estética, explica que essa doença interfere no formato das unhas e compromete seu crescimento. Tinha vez que um dedo passava mais de semanas inchado. A cutícula não crescia mais. E as unhas... cada vez mais fracas.
E agora, passada a adolescência, precisava ter mãos de mulher. Mãos bonitas e delicadas. Foi aí que comecei uma nova batalha. Com muuuuuiiiiiiiitttttooooo esforço e muiiiiiitoooo esmalte também, tenho conseguido fazer as unhas ficarem compridas por mais de um mês.
No momento estou de esmalte. E quando vou à manicure volto feliz da vida [como toda roedora que consegue ir à manicure]. Sempre passo cores fortes. Vermelho é meu preferido. E tem justificativa: Com esmalte escuro eu não ouso colocar a unha na boca e estragar o esmalte e ficar aquela coisa feia saindo e com aspecto de mão suja.
Hoje o prazer de olhar para as unhas grandes e de receber elogios é muito maior que o prazer de devorá-las entre os dentes.
Por isso que eu digo: mães, desistam de quaisquer tipo de psicologia. Há sim tratamento para a onicofagia. Tratamento com remédios, terapias. Mas como afirma a psicoterapeuta Maura de Albanesi, pós-graduada em terapia corporal, “a força de vontade vale muito mais”. E é justamente a força de vontade que acaba com a mania, ou vício. E a força de vontade só virá quando a pessoa sentir que suas mãos já estão feias o bastante, já sangraram o bastante, já incharam o bastante.
O motivo para uma pessoa se tornar um roedor, segundo os médicos, é a ansiedade, angústia, falta de segurança, muita timidez, solidão, estresse, nervosismo... No meu caso, talvez seja ansiedade.
Ok, não estou totalmente liberta, ainda. Acredito que quem é um roedor desde criança, morre roedor. Mas tenho me controlado bastante. Estou de esmalte nas unhas neste momento, e sempre me pego com o dedo na boca. Seja passando o dente por debaixo da unha, seja tentando puxar uma pequena cutícula. A relação de amor violento entre minhas unhas e meus caninos não terminou. Mas agora as unhas engataram num relacionamento muito mais sério: com o esmalte. É uma relação bem menos violenta, onde ninguém sai prejudicado, ferido. Quando o esmalte está saindo, a acetona entra em cena com o algodão. Imediatamente uma outra camada de esmalte vem, sem deixar a unha pensar no dente. E assim vai... eu tentando uma separação e forçando uma nova relação de amor.
É muito emocionante poder desenhar florzinhas, ir à manicure, passar esmalte vermelho... Dá pra fazer até francesinha! É acho que as unhas já se apaixonaram pelo esmalte.
E os dentes? Sim, eles sentem muita falta das unhas. Mas nas horas de resistência, os dentes travam uma batalha contra a pelinha do canto da boca. Outra relação de amor violento. Morde, puxa, sangra. E em seguida eu ouço um berro: “Páááááááárrraaaa de mooooorrddeeerrr esssaaaa boooccaaaa!!!! Queeeee maaaaniiiiaaaa maaaiiiisss feeeiiiiaaa”.
Minha mãe não desiste, nunca.

Unha e dente: uma relação de amor violento, onde os dedos sempre saem doloridos, sangrando...
-----
Rafaela Gizzi

12 pessoas já conheceram!:
Achei muito 10!
Bom...então...é horrível comer unha!!!!Massss....eu infelizmente devoro as minhas unhas!!!Não desisto nunca de tentar e tentar!!!Hoje tem 4 dias que não levo a mão na boca..hurhurhur é uma tentação!Falei pra minicure desenhar alguma coisa na minha unha para durar um pouquinho mais os esmaltes...ehehehe...está dando certo!
Cris Mega94
cristianeanascimento@hotmail.com
Rafa, Adoreiiii...
Nunca roí unha, mas a cutícula.... não tem jeito essa vai mesmo....e o esmalte?! não posso nem ver um pedacinho saindo q ja começo a tirar com o dente... não sei o q acontece...
Já o Natel, vou seguir o conselho e parar de brigar com ele, não tem jeito mesmo....ele é um roedor nato...
Bjssss
eu já roí a unha qndo era adolescente, mas pq uma amiga fazia e eu achava legal, até q um menino me disse q minha mão era horrível, depois disso, nunca mais
=)
Putz, texto MARAVILHOSO! A realidade de um roedor de unhas é assim mesmo. Eu ja me dei por vencida: não tenho jeito pra parar com isso. Até usando aparelho ortodontico eu conseguia roer unha (desenvolvi técnicas avançadissimas de "roeção"). Adorei o texto!
Bjoks
Meeeenina!!!!NUNCA consegui a proeza de roer as unhas!!E olha que eu já ate tentei!!!Mas minha unha é dura que nem casco de cavalo!O dente nao da conta...pra vc ter idéia minha unha não corta com aquelas tesourinhas e cortar a unha, a bixa só corta com alicate mesmo!!!!
Rafa, para de roer unhaaaaaaa!!!!!hahahahaa
Adorei o texto!!!!
beijos
rafaaaaaa..
ADOREI o texto!
Nossa, vi muito da minha infância nas suas palavras, mais no lugar da sua mãe, era a minha avó que encrencava. E pasme, ela colocava pimenta nas minhas mãos enquanto eu dormia. Acho que foi por isso que hoje desenvolvi um gosto pela pimenta incontrolável. ADÓRO.
Em relação a não ter mais unhas e partir para o canto da boca, quantas e quantas vezes você já não brigou comigo por que eu ficava fazendo isso em apresentações de trabalho, ou até mesmo no vídeo????
Mais uma vez eu leio os seus textos e vejo que temos MUITO em comum. Talvez seja essa afinidade que tenha feito com que nós sejamos grandes amigos.
Super beijos
Eeeeeeu voltei agora é pra ficaaaarrr
Porque aqui, aqui é o meu lugaaarr! ;D
ahuahauhauahuaha
Voltei pro Bloggg! ;D
E amei seu textooo!
Caraa, me identifiqueii asiuhdasdasjdioasj
Eu sofria disso Rafa!
Nossa, minha mãe tinha amesma reação da sua ahuahauhaua
mas eu não rôo maaais! (é assim q escreve? kkkkk)uhuuuul! ahuahauaha
E nem sei como parei.. foi do nada, parei sozinha. Mas eu sofria mtoooo com isso..
mas sei lá! Quem sabe passe do nada com vc tbm né? hasudhasuihdiuas
Beeijo Rafa!
aahh!
meu novo endereço é lianafeitosa.blogspot.com
;*
rsrsrsrs... parece até eu, faz muito tempo que fico roendo as minhas unhas, e ja naum as como , como as cutículas.Apesar da dor continuo roendo ... oH vício infernal!!!!
SUPER VERDADE ISSO... vc é a roedora neh hehehe
BEIJOSSS
aff gente, tudo que eu queria era parar com esse vício infernal!
Eu literalmente arranco a cabeça do dedo.
Un affraccio dal'Italia!!!!! con mlto piacere...
Amei o texto e me dentifico MUIIIITO com ele.
Postar um comentário